Quando a Arte Aprendeu a Respirar
Há artistas que colocam uma imagem diante dos nossos olhos.
E há artistas que nos fazem entrar dentro dela.
Lygia Pape pertence a esse segundo grupo.
Sua obra parece estar sempre procurando uma passagem: entre a forma e o espaço, entre a geometria e o movimento, entre aquilo que vemos e aquilo que sentimos.
E talvez seja justamente por isso que sua relação com a arte gráfica seja tão fascinante.
Porque, para Lygia Pape, uma imagem nunca precisava permanecer parada.
Ela podia se multiplicar.
Podia ocupar o espaço.
Podia ganhar corpo.
Podia provocar o olhar.
E podia, também, nascer através de uma tela serigráfica.
Uma artista no coração da transformação da arte brasileira
Lygia Pape nasceu em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 1927.
Na década de 1950, aproximou-se de um grupo de artistas que estava ajudando a transformar profundamente a arte brasileira.
Ao lado de nomes como Lygia Clark e Hélio Oiticica, participou do Grupo Frente, ligado à renovação da arte concreta no Rio de Janeiro. Mais tarde, essa experiência ajudaria a formar o movimento neoconcreto brasileiro.
Era uma época em que muitos artistas começavam a questionar uma ideia antiga:
A obra de arte precisa ser apenas contemplada?
Lygia Pape parecia responder:
Não. Ela pode ser experimentada.
A geometria ganhou movimento
No início de sua trajetória, Pape trabalhou intensamente com formas geométricas.
Linhas.
Quadrados.
Retângulos.
Ritmos.
Espaços.
Mas sua geometria nunca pareceu fria.
Havia movimento dentro dela.
Como se aquelas formas estivessem esperando o momento certo para escapar do papel.
Sua produção passou por pintura, gravura, escultura, cinema, design e instalações. Essa liberdade para atravessar diferentes linguagens tornou-se uma das características marcantes de sua trajetória.
Ela não parecia interessada em escolher uma única maneira de fazer arte.
Preferia descobrir quantas maneiras diferentes a arte poderia encontrar para existir.
Quando a arte deixa de ser uma janela
Talvez uma das coisas mais bonitas na trajetória de Lygia Pape seja perceber como ela ajudou a mudar a relação entre obra e espectador.
A arte deixou de ser apenas algo que observamos de longe.
Ela passou a ocupar o espaço.
Passou a convidar o corpo.
Passou a exigir participação.
Estudos sobre a produção daquele período destacam justamente essa transformação: obras que propunham uma nova relação entre a criação artística e aquele que a experimentava.
Era uma nova maneira de pensar.
A obra não terminava necessariamente no artista.
Ela continuava no olhar de quem a encontrava.
E onde entra a serigrafia?
É aqui que nossa história fica ainda mais interessante.
A serigrafia possui uma característica que conversa profundamente com o pensamento de Lygia Pape:
a possibilidade de transformar uma imagem em múltiplas experiências.
A tela.
A tinta.
A passagem do rodo.
A pressão.
A transferência.
O aparecimento gradual da imagem.
Existe algo quase mágico nesse processo.
A imagem que estava escondida começa a surgir.
E quando a tinta atravessa a matriz, aquilo que era apenas uma ideia passa a existir sobre uma superfície.
Pape também explorou a serigrafia em sua produção. Um exemplo registrado é Mandarin, de 1980, apresentada como serigrafia em edição.
Isso nos lembra de algo importante:
A serigrafia não pertence somente à publicidade, à indústria ou à reprodução comercial.
Ela também pode ser pensamento.
Pode ser pesquisa.
Pode ser linguagem.
Pode ser arte.
Uma arte que não queria ficar presa
Talvez seja essa a melhor maneira de compreender Lygia Pape.
Ela não parecia querer que sua arte permanecesse confinada.
Nem dentro de uma moldura.
Nem dentro de uma técnica.
Nem dentro de uma definição.
A mesma artista que investigava rigorosamente a geometria também explorava o cinema, o espaço, o corpo, a linguagem e diferentes materiais.
Sua trajetória é uma espécie de convite à liberdade.
Uma liberdade que também encontramos na serigrafia.
Porque uma matriz pode gerar muitas imagens.
E cada imagem pode ganhar uma nova vida dependendo da superfície, da tinta, da cor e da maneira como é impressa.
O Brasil também aprendeu a olhar diferente
Quando falamos sobre a história da serigrafia na arte, é muito fácil olhar primeiro para os grandes nomes internacionais.
Andy Warhol nos mostrou a força da repetição.
Thomas Kinkade nos mostrou a força da luz.
Lygia Pape nos mostra outra coisa:
a força de romper limites.
Sua trajetória faz parte de uma geração que ajudou a colocar a arte brasileira em diálogo com questões contemporâneas internacionais, sem simplesmente repetir modelos estrangeiros. O Grupo Frente e o movimento neoconcreto foram fundamentais nesse processo de renovação.
E isso tem um significado especial para nós.
Porque a história da arte brasileira também está cheia de artistas que experimentaram, arriscaram e procuraram novas maneiras de transformar uma ideia em matéria.
A impressão como possibilidade
Existe uma beleza especial no fato de uma obra poder ser multiplicada.
A primeira impressão não precisa destruir a importância da segunda.
A segunda não precisa diminuir a terceira.
Cada uma pode carregar a mesma ideia e, ao mesmo tempo, pertencer a um novo momento.
É justamente essa possibilidade que tornou os processos gráficos tão importantes para a arte contemporânea.
A impressão permite que uma ideia viaje.
Saia do ateliê.
Atravesse uma cidade.
Chegue a outra pessoa.
Entre em outro espaço.
E continue vivendo.
Lygia Pape e a liberdade de criar
Talvez seja por isso que olhar para a obra de Lygia Pape seja tão interessante.
Ela nos lembra que criatividade não significa simplesmente criar algo diferente.
Criatividade também significa não aceitar que exista apenas uma maneira de fazer.
Uma linha pode virar desenho.
Um desenho pode virar gravura.
Uma gravura pode virar pensamento.
Uma imagem pode sair do papel.
E a arte pode ocupar o mundo.
Quando uma impressão se transforma em arte
Na Locomotiva Serigrafia, trabalhamos diariamente com tinta, papel, matrizes, cores e processos de impressão.
Mas conhecer histórias como a de Lygia Pape nos faz olhar para tudo isso de outra maneira.
Por trás de uma impressão existe sempre uma escolha.
Uma cor.
Uma forma.
Uma textura.
Uma intenção.
E talvez seja essa a grande beleza da serigrafia:
ela não apenas reproduz uma imagem.
Ela oferece ao artista uma maneira de fazer a imagem existir.
Para terminar…
Andy Warhol nos ensinou que a repetição poderia se transformar em linguagem.
Thomas Kinkade nos mostrou que a luz poderia se transformar em emoção.
Lygia Pape nos mostra que a arte não precisa aceitar fronteiras.
Ela pode atravessar o papel.
Pode atravessar a tela.
Pode atravessar o espaço.
Pode atravessar o tempo.
E talvez seja isso que torna a arte verdadeiramente viva:
quando ela deixa de ser apenas aquilo que vemos e passa a ser aquilo que sentimos.
Locomotiva Serigrafia — História da Serigrafia
Esta é a terceira história da nossa série dedicada aos artistas que ajudaram a revelar as inúmeras possibilidades da impressão e da serigrafia.
Porque antes de ser apenas um processo de impressão, a serigrafia também pode ser uma forma de pensar, criar e transformar o mundo através da imagem.




